Sanitário Compostavel

Sou um paulistano, e durante 30 anos convivia com uma cena triste, ver o Rio Pinheiros e o Tietê poluídos exalando aquele cheiro fétido de fezes. Durante muito tempo tive uma imagem de que o nosso coco fosse algo poluente e  nocivo a saúde do homem, com isso tentava ter o mínimo de contato possível. Mas uma questão me perseguia: o que fazer com esse problema? Será que poluir um rio com um toque de descarga era melhor solução?

Mas nem sempre foi assim, os principais Rios de São Paulo foram a sua porta de entrada para os portugueses. Por causa dos rios São Paulo era fértil e rica.

Rio Pinheiros em 1930

    Por que matamos nossa galinha dos ovos de ouro ao contrario de cuidar?

 

  Então, com essas questões na cabeça fui atrais das respostas. A resposta que mais me impressionou foi a do sanitário compostavel, que ao invez de poluir produzia humus ( adubo pras plantas)

Tomaz Lotufo um bio arquiteto de Botucatu descreve em um texto que essa história não é nada nova, da uma olhada:

“Sanitário Seco não é tão novo…

Tradução de texto do livro “The composting Toilet System Book, David del Porto”

Um sanitário a base de terra é um sanitário seco onde terra seca é usada para cobrir os excrementos. Até mais ou menos 100 anos atrás, o tradicional “lugar para aliviar as necessidades” para as pessoas que viviam no campo era ou uma casinha com um buraco fossa, ou um sanitário a base de terra. Por este sanitário ser raso, o processo de decomposição era aeróbico, permitindo a ocorrência do processo de compostagem. Esta é provavelmente a primeira construção de um sanitário seco.

Na Inglaterra, a Rainha Victoria usava um sanitário a base de terra no Castelo de Windsor, embora muitos tipos a base de água eram disponíveis. Por muitos anos, sanitários a base de água e de terra foram sistemas rivais, com vitórias e derrotas em ambos os lados.

Henry Moule, o Padre de Fordington em Dorset, premiou o sanitário de terra nos anos 1800. Em 1861, ele produziu uma cartilha de 20 páginas intitulada “Riqueza e saúde nacional ao invés de doença, amolação, gasto e lixo causado pelas fossas abertas e drenagem de água”. “As fossas e as casinhas são simplesmente uma abominação não natural” esbravejou ele.”O sanitário a base de água apenas aumentou estes males“. E ele continuou descrevendo a sua impressionante descoberta.

No verão de 1859, ele concluiu que sua fossa era intolerável e uma ruim para os vizinhos. Então tampou-a e instruiu toda a sua família a usar baldes. No começo, ele colocava os excrementos em trincheiras no quintal, a um pé (30 cm) de profundidade e cobria com terra seca, quando descobriu por acidente que em 3 ou 4 semanas “Nenhum traço da matéria podia ser visto”. Então o Padre ergueu um barracão, peneirou terra seca a qual misturava com o conteúdo dos baldes, todas as manhãs. E dizia: “Uma criança não leva mais doque 15 minutos para a operação toda. E 10 minutos depois de completo, nem os olhos e nem o nariz podem perceber alguma coisa ofensiva”.

Em seguida, descobriu que poderia reciclar e usar a mesma matéria (depois de processada) várias vezes, e começou a ficar mais poético: “Água é somente o veículo para remover as fezes longe de nossa visão e instalações. Ela nem absorve e nem desodoriza efetivamente… o melhor agente é a terra superficial seca, tanto para absorver quanto tirar o cheiro ofensivo da matéria”. E então disse que não mais jogaria fora este valioso adubo e sim obteria um “Luxuoso crescimento dos vegetais em meu jardim”.
Ele confirmou este ultimo ponto com experimentos científicos, mostrando que batatas nutridas que este composto cresciam um terço a mais doque quando recebiam superfosfato.
De acordo com Moule, doutores disseram que se o seu esquema fosse adotado de modo geral, “Muito mais poderia ser efetivado para prevenir e interromper doenças, mal estar e melhorar a saude doque “Jener” efetivou com a descoberta da vacinação”.
Em mais ou menos 1850, algumas pessoas na Inglaterra levaram o banheiro seco para dentro de casa, várias patentes surgiram. Moule produziu um vaso sanitário constituido por um balde embaixo do assento e um funil atrás contendo terra seca e fina, ou cinzas:”Quando você terminou, puxa a alavanca para liberar a medida necessária de terra dentro do balde a ponto de cobrir o conteúdo. Outra patente era de Parker “Woodstock”, tinha um similar mecanismo automático acionado, ou com a pressão deixada no assento(dava descarga quando a pessoa ficava de pé), ou pressionando uma alavanca de pé.
Moule tentou bastante ajuda financeira do governo: “Nunca poderá haver uma reforma sanitária nacional sem uma intervenção ativa por parte do Governo central. Esta intervenção não acontecerá em sistemas de tratamento baseados em água sem que haja um grande aumento de impostos. Mas, deixe o sistema de sanitário seco ser aplicado… teremos uma vasta melhoria na saude e conforto, impostos e taxas podem ser completamente aliviados…”
O Jornal Médico “The Lancet” relatou que 148 dos seus vasos sanitários secos foram usados por voluntários acampados em Wimbledon – 40 ou 50 deles usados todos os dias por não menos que 2000 homens – estes não tiveram o menor aborrecimento.
Em 1865, a Dorset County School, com 83 meninas, mudou as privadas a base de água para a base de terra seca. O custo anual de manutenção baixou dramaticamente e ao mesmo tempo mal cheiro e diarréia foram eliminados.
Por algumas décadas, na segunda metade do século XIX, sanitário seco e de água tiveram uma calorosa competição. A maioria das coisas que Moule disse eram verdades e muitos dos mesmos argumentos são usados hoje pelos que premiam o banheiro seco. As considerações ambientais não mudaram, além disso usar sanitários com água torna o sistema caro para o município e simplismente mandamos o problema por “correnteza abaixo”.
Henry Moule morreu em 1880, mas atá o fim ele tentou persuadir o governo Ingles que os sistemas secos eram o futuro, e quase teve sucesso. Apesar disso, nos países ricos o sistema com água venceu a batalha, pois com ele, se pode remover(só não se sabe para onde) rapidamente o esgoto da casa, por enquanto…”

Finalizarei a matéria com um vídeo pra se ter uma idéia pratica do que se trata o sanitário compostavel.

Assim, mais conscientes, teremos capacidade de interpretar nas entrelinhas o que significa de fato fazer uma cagada. E o que significa fazer uma compostagem… Cabe a nós agora a duas alternativas: ignorar e continuar sujando os rios e mares com soluções tradicionais, ou reescrevermos e evoluirmos para um futuro promissor pra nós e pras futuras gerações…

Sobre rodrigoprimavera

bambuzeiro, designer de produtos de bambu, arte educador , permacultor Enquanto o mundo gira, homens correm pra ter... eu planto Enquanto bombas explodem, carros passam, buzinas soam ... eu planto. Enquanto elevadores sobem, descem, cameras de segurança flagram ... eu flagro o tecer de uma teia de aranha. Durmo aos sons das ondas. Quando a maioria vai pra lá eu vou pro outro lado. Quando ninguém mais quer e descarta, eu aproveito. Coloco minha energia na vida. Invisto na vida, dou de comer as minhocas, as formigas, aos cupins, juntos dividimos o que a vida tem de bom... Acredito na impermanência permanente. Sou a favor do vento, da chuva, do lodo, do silencio musical da natureza. Luto comigo mesmo, contra a preguiça, a gula, o egoísmo, o medo. Prezo pelos meus amigos, todos eles. Sou filho da Terra e por ela nutro o mais profundo respeito. Admiro o simples. Tenho o orgulho de ter matado a anciedade dentro de mim. Sei que tudo tem o tempo certo pra acontecer. Me dou o luxo de me espreguiçar quase o tempo todo. Colho os frutos, reparto os excedentes. "
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2 respostas a Sanitário Compostavel

  1. Eliseu Pinheiro Lopes diz:

    Olá Rodrigo, bela iniciativa, meus parabéns!
    No vídeo fala da minha cidade Araçuaí, quando estive lá, fui ver o sanitário construido, é uma boa idéia tem que divulgar mesmo…
    Um abraço!
    Eliseu
    Fazenda dos Bambus/Instituto Jatobás

  2. Débora Vieira diz:

    Gostei muito de como expos o assunto, espero receber notificação de novos posts. Su arquiteta, e recentemente fiz um mestrado em novas tecnologias com respeito ao meio ambiente, ou melhor, um mestrado para reaprender a projetar com mais consciencia.

    Um forte abraço,
    Débora

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